

Estamos em uma fase da vida onde muitos se encontram apressados, atendendo a compromissos, respondendo a mensagens, tentando equilibrar diversas funções e, mesmo assim, sentindo que algo está em falta. Um vazio silencioso, uma falta de conexão, uma inquietação noturna, uma melancolia inexplicável, ou simplesmente uma vida que parece “fora de eixo”.
Isso acontece muito mais frequentemente do que se pensa. A saúde mental não se resume a neurotransmissores ou diagnósticos psiquiátricos — ela resulta da interconexão complexa de fatores físicos, emocionais, sociais e, é claro, espirituais.
A espiritualidade, o sentido da vida e o bem-estar constituem a base de uma vida saudável, embora raramente sejam abordados de maneira aprofundada. Como psiquiatra, atendo diariamente pessoas que se queixam de ansiedade, insônia, irritabilidade ou fadiga, mas que, à medida que avançamos no tratamento, percebem que a verdadeira questão é outra: eles se desconectaram de si mesmos, de seus valores e do propósito da vida.
É nesse ponto que se destaca o cuidado integral.
Antes de prosseguirmos, permitam-me fazer uma breve apresentação:
Eu sou a Dra. Vitória Del Sarto, médica graduada pela Faculdade de Medicina de Itajubá e especialista em Psiquiatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Realizo atendimentos por telemedicina, com um enfoque no acolhimento, na humanização, na ética e fundamentado em evidências científicas. O que me distingue é a forma como percebo o paciente de maneira integral — considerando o corpo, a mente, a história de vida, os hábitos diários, a espiritualidade e o sentido da vida.










É sob essa perspectiva que elaboro este artigo.
Mas, afinal, o que é espiritualidade?


Espiritualidade não se confunde com religião. Não se trata de obrigação, dogma ou doutrina.
No que se refere à saúde mental, espiritualidade é:
-
- ligação com a própria essência;
-
- senso de significado;
-
- crenças pessoais;
-
- consciência das emoções;
-
- habilidade de encontrar significado nas adversidades;
-
- sentimento de pertencimento;
-
- esperança e significado.
Quando essa área está enfraquecida, sentimos um vazio, desconexão e até dor emocional.
Quando está fortalecida, a vida se desenrola com mais facilidade, lucidez e constância.
Qual é a razão pela qual a espiritualidade impacta tão profundamente a saúde mental?


Pode parecer um conceito abstrato, mas a ciência demonstra: indivíduos que têm alguma forma de prática espiritual mostram:
-
- nível de ansiedade mais baixo;
-
- melhor forma de lidar com o estresse;
-
- maior capacidade de recuperação;
-
- reduz a probabilidade de depressão;
-
- conexão social ampliada;
-
- qualidade de sono aprimorada;
-
- mais equilíbrio emocional.
Por qual motivo?
Pois a espiritualidade dá ordem ao turbilhão interno.
Ela possibilita momentos de pausa, reflexão e autoanálise.
Auxilia na compreensão de experiências desafiadoras.
Faz sentido o que acontece.
Proporciona orientação em momentos de caos.
Além disso, proporciona um ambiente interno seguro — algo crucial para a saúde mental nos dias de hoje.
Propósito: o alicerce da vida emocional
O propósito não se resume a um ato heroico ou a algo grandioso.
O propósito é o que guia suas decisões, inspira suas atividades e direciona seu percurso.
Quando alguém existe sem um objetivo claro:
-
- encontra-se desorientado;
-
- sente que está parado no tempo;
-
- perde a força;
-
- vive de forma mecânica;
-
- tende a se apegar emocionalmente mais facilmente;
-
- costuma se comparar com outros;
-
- sofre mais de ansiedade e insônia;
Quando se vive com intenção:
-
- sente mais clareza;
-
- é mais audacioso ao fazer escolhas;
-
- percebe alegria nas pequenas coisas;
-
- tolera melhor a pressão externa;
-
- é mais resistente ao estresse;
-
- cultiva uma autoestima mais elevada.
Ter um propósito não é uma questão de luxo.
É indispensável.
O corpo se manifesta quando a alma está doente.


Com frequência, a dor espiritual se manifesta como sintomas físicos e emocionais:
-
- dores inexplicáveis;
-
- aperto no peito;
-
- sono irregular;
-
- fadiga extrema;
-
- irritação;
-
- choro sem motivo aparente;
-
- dificuldade em sentir prazer;
-
- angústia;
-
- sentimento de vazio.
O corpo busca alertar sobre algo interno que necessita de atenção, cuidado e reorganização.
É nesse ponto que um acompanhamento psiquiátrico que considera o todo realmente faz a diferença.
Em minha prática clínica, frequentemente atendo pacientes que chegam com a crença de que “estão fracos”, “não estão dando conta”, “perderam o controle”, quando, na verdade, o que ocorreu foi uma perda de coerência interna na vida deles.
A consulta passa a ser, então, um local de reestruturação — da trajetória, das prioridades, do sentido, da espiritualidade e da saúde emocional.
A vida contemporânea prejudica a alma


Vivemos na era do excesso:
Excesso de estímulo, excesso de informação, excesso de responsabilidades, excesso de autocrítica, excesso de comparação.
Mas falta silêncio.
Falta contemplação.
Falta pausa.
Falta sentido.
E é neste descompasso que o sofrimento se instala.
A espiritualidade — ou a falta dela — se torna um fator determinante no bem-estar mental.
Como nutrir a espiritualidade e o propósito diariamente


Pequenos hábitos geram grandes mudanças:
-
- reservar momentos de silêncio;
-
- ter contato com a natureza;
-
- expressar o que sente por escrito;
-
- expressar gratidão de forma consciente;
-
- descobrir quais são os seus valores pessoais;
-
- desligar para se ligar novamente;
-
- aproveitar tempos desafiadores para ponderar em vez de apenas responder;
-
- cultivar a autoconsciência emocional.
Esses costumes reestruturam o sistema nervoso, aumentam a resiliência emocional e promovem uma saúde mental robusta.
De que forma a psiquiatria pode te auxiliar a redescobrir propósito e equilíbrio?


Na atual prática psiquiátrica, corpo, mente e espírito não são vistos como entidades separadas.
Eu sempre incluo na minha metodologia:
-
- trajetória de vida;
-
- hábitos;
-
- costumes;
-
- sentimentos;
-
- bem-estar físico;
-
- interações sociais
-
- espiritualidade;
-
- propósitos, objetivos e metas.
É esse conjunto que determina o bem-estar.


O tratamento pode incluir:
-
- medicamentos psicotrópicos, quando indicados;
-
- planejamento do dia a dia;
-
- qualidade do sono aprimorada;
-
- reforço da autoconfiança;
-
- detecção de valores;
-
- gestão do estresse;
-
- ressignificação de propósito;
-
- apoio emocional;
-
- entendimento minucioso da trajetória do paciente
Minha meta é constantemente fomentar a autonomia, a clareza e a leveza, sempre com um cuidado que é inteiramente humano e próximo.
Você não precisa existir afastado de sua própria essência


Se você percebe que não é mais a pessoa que era, que sua vida parece um fardo ou sem propósito, saiba que há um caminho para retornar.
E você não precisa enfrentar essa jornada sozinho.
Meu consultório online foi desenvolvido precisamente para receber narrativas autênticas, indivíduos reais que enfrentam sofrimentos verdadeiros — mas que também possuem um imenso potencial para cura, transformação e renascimento.
Propósito se reconstrói.
Espiritualidade se fortalece.
Bem-estar se aprende.
E sua saúde mental pode florescer novamente.