

Apostas esportivas, cassinos online, caça-níqueis… todos esses jogos de azar têm experimentado um crescimento explosivo nos últimos anos, especialmente com a conveniência que as plataformas digitais oferecem. É um ambiente que seduz pela promessa de lucro fácil, adrenalina pura e a sensação de “quase vitória”. Para a maioria das pessoas, esse mundo ainda é apenas diversão.
No entanto, para algumas pessoas, o jogo deixa de ser uma forma de entretenimento e se converte em um comportamento compulsivo, que resulta em danos emocionais, financeiros, familiares e sociais. É aqui que encontramos o Transtorno de Jogos de Azar, devidamente reconhecido pelos mais importantes manuais diagnósticos da psiquiatria contemporânea (DSM-5 e CID-11) e que precisa ser observado com especial atenção por profissionais e pela sociedade.
Sou a Dra. Vitória Del Sarto, médica formada pela Faculdade de Medicina de Itajubá e especialista em Psiquiatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Ao longo da minha trajetória, construí experiência clínica no cuidado de diferentes transtornos mentais e investi em formações complementares em áreas como insônia, burnout, TDAH em adultos, manejo do estresse, saúde emocional das mulheres e terapias contemporâneas. Também possuo cursos e aprofundamento específico na área dos transtornos relacionados a comportamentos compulsivos, incluindo o transtorno de jogos de azar, mantendo-me em constante atualização científica para oferecer um atendimento ético, responsável e alinhado às melhores evidências.


Atuo exclusivamente no ambiente online, unindo ciência, escuta qualificada e acolhimento a uma visão integrativa da saúde — considerando dimensões físicas, mentais, emocionais, sociais e espirituais. Neste espaço, onde abordo o transtorno de jogos de azar — quando o jogo deixa de ser diversão e passa a gerar sofrimento — compartilho conhecimento com autonomia e responsabilidade, com o objetivo de informar, conscientizar e auxiliar na construção de caminhos possíveis para o cuidado e a recuperação.
.








Transtorno de Jogos de Azar: o que é?


Transtorno de Jogos de Azar é uma dependência do tipo não química, conhecida também como jogo patológico ou gambling disorder. Embora não esteja relacionado a substâncias, ele possui elementos-chave que se assemelham a outros vícios, como:
-
- perda de controle;
-
- necessidade crescente de aumentar o comportamento (tolerância);
-
- repetição patológica apesar de resultados ruins;
-
- prejuízo considerável na esfera pessoal, social, familiar e financeira.
A definição contemporânea, segundo o DSM-5, refere-se a um padrão contínuo e repetido de comportamento de jogo que resulta em prejuízos ou sofrimento de natureza clínica. A CID-11 o coloca na seção de distúrbios decorrentes de comportamentos aditivos, ao lado do transtorno por uso de videogames.
Os jogos de azar estimulam fortemente o sistema de recompensa do cérebro, resultando em rápidas libações de dopamina. Esse reforço intenso cria um ciclo de procura incessante pela próxima aposta — mesmo que a pessoa enfrente perdas frequentemente.
Por que o Transtorno do Jogo está se tornando tão comum?
O crescimento significativo dessa condição está ligado a vários fatores:
1. Acesso digital ilimitado
Atualmente, é viável realizar apostas a qualquer momento e de qualquer lugar utilizando o celular. O acesso irrestrito e a qualquer hora do dia diminuem o controle e aumentam as chances de compulsão.


2. Publicidade e marketing apelativos
As apostas esportivas estão presentes em anúncios de TV, nas redes sociais, durante as partidas de futebol e nas plataformas de streaming. Bônus de boas-vindas, “ganhos garantidos” e códigos promocionais criam a sensação de oportunidade imperdível.
3. Gamificação
As plataformas empregam recursos de gamificação, como pontuações, classificações, níveis e desafios, para manter o usuário interessado.
4. Sentimento da dúvida
O reforço intermitente (ganhar de surpresa, perder sempre) é um dos maiores motivadores para a dependência. Sentir que se está “quase ganhando” é um reforço psicológico.
5. Pontos fracos emocionais
Para aqueles que lidam com estresse, solidão, ansiedade, depressão ou baixa autoestima, o jogo pode servir como uma válvula de escape.
É por isso que o transtorno vem se intensificando, especialmente em jovens adultos, profissionais sobrecarregados, pessoas endividadas e aquelas com uma natureza mais impulsiva.
Quando o jogo se torna um problema: sinais de alerta
Embora jogar de vez em quando seja normal, certos sinais podem indicar que a situação está se tornando problemática:


1. Fuga do controle
-
- mesmo quando a pessoa quer, sente dificuldade em parar;
-
- irritação, nervosismo ou agitação ao tentar diminuir;
-
- jogatinas que duraram mais do que o previsto.
2. Dar prioridade ao jogo
O jogo começa a tomar mais espaço do que trabalho, família, hobbies e cuidado pessoal.
3. Apostas cada vez maiores
A pessoa começa a sentir que precisa apostar mais para obter a mesma emoção.
4. Tentar reaver perdas
Um dos sinais mais evidentes é a tentativa de “recuperar o dinheiro perdido”, levando a dívidas cada vez maiores.
5. Mentiras ou minimização
Enganar a família, ocultar extratos bancários, inventar justificativas para transferências e despesas.


6. Prejuízos concretos
– endividamento;
– perda de bens materiais;
– ameaça de demissão;
– conflito familiar
– perturbação do sono
– ansiedade e depressão relacionadas
Se o jogo começar a causar dor ou prejuízo de forma consistente, é fundamental procurar uma avaliação profissional.
Efeitos sobre a saúde mental


O transtorno do jogo frequentemente coexiste com outros sintomas:
-
- ansiedade;
-
- tristeza profunda;
-
- irritação;
-
- culpa;
-
- autoestima baixa;
-
- falta de sono;
-
- exaustão emocional;
-
- sentimento de desamparo.
Além disso, existe um risco elevado de comportamentos impulsivos e, em situações graves, até mesmo a ideação suicida — particularmente quando há grandes perdas financeiras e um sentimento de isolamento emocional.
A razão para isso é que o acompanhamento psiquiátrico é essencial para identificar não apenas o transtorno principal, mas também suas causas, consequências e outros transtornos relacionados.
Avaliação psiquiátrica: o que é examinado?
A avaliação psiquiátrica do Transtorno de Jogos de Azar é minuciosa e integral. Na consulta, o médico investigará:
1. Padrões de jogos
-
- categorias de jogos;
-
- ocorrência;
-
- estímulos emocionais;
-
- quantias em jogo;
-
- tempo utilizado.
2. Efeitos funcionais
-
- perdas financeiras;
-
- questões familiares;
-
- declínio no desempenho profissional;
-
- isolamento social.
3. Sintomas associados
Muitos pacientes chegam com ansiedade severa, depressão, raiva, falta de atenção ou insônia. Esses sintomas requerem tratamento, pois mantêm o ciclo da compulsão.


4. Antecedentes de saúde mental
O psiquiatra investiga possíveis fatores que possam contribuir, como:
-
- Impulsividade;
-
- TDAH;
-
- disfunções do humor;
-
- consumo de drogas.
5. Motivação e fase de mudança
É fundamental entender se a pessoa quer parar, diminuir ou controlar o comportamento, pois isso orienta as estratégias terapêuticas.
A avaliação psiquiátrica é realizada de forma acolhedora e livre de julgamentos. A proposta é entender a dor e construir um caminho de cuidado.
Tratamento: quando o jogo se torna uma doença, há solução


O tratamento do Transtorno de Jogos de Azar é eficiente e utiliza várias estratégias.
1. Psicoterapia
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das mais eficazes e estudadas.
Ela auxilia o paciente a:
-
- reconhecer os gatilhos emocionais;
-
- compreender crenças distorcidas relacionadas a “azar, sorte e controle”;
-
- desenvolver táticas para controlar impulsos;
-
- diminuir recaídas;
-
- trocar os jogos por atividades saudáveis;
-
- reforçar a disciplina e a rotina.
Além da TCC, outras terapias podem ser eficazes, dependendo do perfil emocional do paciente.
2. Farmacoterapia
Mesmo não havendo um “remédio que faz a pessoa parar de jogar”, o uso de medicação pode ser bastante benéfico em muitos casos — principalmente quando há comorbidades ou impulsividade significativa.
Os principais objetivos da medicação são:
a) Diminuir a impulsividade
Alguns remédios podem ajudar a controlar esse impulso desregulado, tornando o tratamento mais eficaz.
b) Lidar com a ansiedade e a depressão
Quando esses sintomas aparecem, é fundamental tratá-los para diminuir o comportamento de jogo patológico.
c) Diminuir as obsessões ligadas ao jogo
Alguns medicamentos podem ajudar a reduzir os pensamentos insistentes sobre apostas.
3. Educação e psicoeducação para o paciente e sua família
Instruir o paciente e seus familiares a respeito de:
-
- perigos do jogo;
-
- como o transtorno funciona;
-
- como gerenciar gatilhos;
-
- como prevenir recaídas;
-
- como estruturar a rotina financeira.
A família não pode controlar, punir ou vigiar — mas deve apoiar, entender e criar limites saudáveis.
4. Reformulação de hábitos e finanças
Uma parte significativa do tratamento consiste em:
-
- restabelecimento da rotina;
-
- sono adequado;
-
- ressurgimento de passatempos e hobbies;
-
- realização de atividades físicas;
-
- gestão financeira;
-
- proibição de aplicativos de apostas;
-
- definição clara de quando usar o celular.
Essas abordagens capacitam o indivíduo e diminuem as recaídas.
5. Grupos de suporte
Organizações como Jogadores Anônimos (JA) proporcionam apoio emocional e a oportunidade de compartilhar experiências, o que pode ser especialmente valioso para aqueles que se sentem envergonhados ou isolados.
Por que não é tão simples como “parar de jogar”?


Uma vez que o transtorno se baseia em mecanismos profundos:
-
- modificações no sistema de recompensas;
-
- impulsividade;
-
- convicções acerca de controle e sorte;
-
- emoções desafiadoras;
-
- alívio momentâneo da dor;
-
- sentimento de pertencimento.
Portanto, colocar a culpa na pessoa ou exigir que ela tenha mais força de vontade só intensifica a dor que já sente.
Como apoiar uma pessoa que está passando por esse transtorno


-
- converse com compreensão;
-
- evite fazer acusações;
-
- incentive a buscar uma avaliação profissional;
-
- ofereça assistência, não controle;
-
- oriente limites financeiros de incentivo e autocuidado
Tenha em mente: a dependência é uma doença, não uma falha de caráter.
Em conclusão: há tratamento, suporte e recuperação


O Transtorno de Jogos de Azar é uma condição grave, mas tem um alto potencial de tratamento. Com uma avaliação psiquiátrica apropriada, terapia, suporte familiar, mudanças nos hábitos e, quando necessário, uso de medicamentos, é plenamente viável restaurar o equilíbrio, a saúde mental e a estabilidade financeira.
Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza — é um ato de bravura e autocuidado.
Ninguém precisa lidar com isso sozinho.

